http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=498527Editorial do Jornal de Negocios de 28/07/2011
Por: Pedro Santos Guerreiro
A agenda angolana desmantelou o velho BCPA venda da Polónia é o fim do projecto BCP tal como o conhecemos.
As acções, primeiro, até vão subir. Mas é um erro estratégico para o banco. E uma tragédia para o País. A Sonangol assim o quis: amputou o futuro. Teria sido melhor pedir capital ao Estado. Este jogo tem um nome: fracasso.
Faz hoje um ano que a PT comprou a Oi. Fê-lo depois da venda fabulosa da Vivo. É daí a expressão do parágrafo anterior: "Amputar o futuro." A PT fez então o negócio da sua vida. O BCP pode estar a fazer o negócio da sua morte: vende o que tem de melhor; não está em condições de negociar bem; promete uma nova vida no Brasil que ninguém conhece.
A Sonangol tem todo o direito de cometer este erro, mas não deixa de ser um erro. É o maior accionista do BCP, o maior financiador dos últimos anos, lá acumula prejuízos e sempre defendeu a estratégia África-Brasil-China. É o que vai fazer agora. Mas não é fácil entrar bem no Brasil. E pode até já ser tarde (ou seja: caro) de mais. Pode ser que o novo BCP cresça e reapareça. Para já, o BCP fica um banco de paróquia: um banco em Portugal, com uma actividade interessante em Moçambique, outra ainda pouco relevante em Angola. Para trás fica o rasto de um sonho de internacionalização: EUA, Roménia, Turquia e agora essa jóia que é a Polónia e esse activo tóxico em que se tornou a Grécia.
Em Portugal, o BCP é um banco sólido e sem risco para os depositantes. Mas este mercado não interessa. Os resultados do BPI de há dois dias mostram-no: rentabilidade dos capitais em Portugal de 3% (que sobe para 7% quando se inclui Angola). No BCP, pior: resultados pobres; um rácio de crédito com incumprimento de 5,4% - talvez o mais alto desde que há banca cotada (depois das reprivatizações); e apesar da máquina comercial invejável que o BCP continua a ser (400 milhões de margem financeira "pura", 200 milhões em comissões), o banco teria tido prejuízos se não fosse um crédito fiscal.
A Polónia traz lucros ao BCP. Mas a Polónia será vendida. Muitos bancos alemães vão adorar a notícia. Tem dúvidas? Então vá aos resultados da Jerónimo Martins. Esses, sim, são colossais. Mérito próprio.
Não é por acaso que Alexandre Soares dos Santos é agora o segundo homem mais rico de Portugal na lista da "Exame". Se a lista retirasse aos activos o valor dos passivos, o segundo lugar seria ainda mais sólido. Mas a Jerónimo é caso raro. Nesta edição, contamos como a Cimpor, que já tem dois donos brasileiros, vai passar a ter só um; ou como a TAP e os Estaleiros Navais de Viana do Castelo procuram dono. É a história deste Verão: os falidos vendem os seus haveres para saldar os seus deveres.
Em retrospectiva, a pior coisa que podia ter acontecido ao BCP teria sido comprar em 2007 o BPI na OPA, hoje não restaria nada. Mas o melhor que poderia ter acontecido passou à mesma porta também em 2007: quando o BPI reverteu a OPA com uma proposta de fusão. Nem todos os accionistas teriam gostado (menos ainda o Governo PS), mas hoje haveria um "Millennium BPI" mais sólido e rentável.
Quando Ulrich propôs a fusão com o BCP, disseram-lhe que ela jamais poderia levar ao desmantelamento do BCP. É um desgosto ver o BCP apequenar-se. Mas é também mau para o País, que perde uma fonte de entrada de capitais (os lucros polacos) e um acesso à internacionalização de empresas.
Os accionistas do BCP têm todo o direito de fazê-lo. Mas é lamentável que ponham os seus interesses à frente dos do País - só que este País não é o deles. Havia alternativa, mas menos rentável: pedir capital ao Estado. Bem vistas as coisas, o Estado até está a ajudar: afinal, o BCP só teve lucros este semestre por causa de um crédito fiscal. Se o dinheiro dos contribuintes patrocina lucros no presente, mais valia que fosse usado para garantir o futuro.